Parte I: O Chamado da Anciã

 

 

Calçaram-me botas da obediência. Apertaram o nó de uma estranha medida.” (Isabel Molita)

 

 

Era um dia de calor escaldante quando meu tio, o Seu Molita, trabalhava carregando pedras. O suor desenhava caminhos na poeira de seu rosto. Preocupada com sua hidratação, perguntei se ele já havia bebido água. Ele mirou o horizonte como quem contempla uma aparição distante, mas — naquele instante — real. Ousando encarar toda a profundidade da sua alma, revelou-me:

 

​— Eu busquei beber no rio do tempo, mas enquanto tomava da sua água, via seu leito arenoso e percebia como era raso. Eu era movido pelo Espírito do Vale e fui feito por aquilo de que tinha sede. Por onde eu passava, o junco estava sempre firme e equilibrado. Porém, durante um dia de tormenta, pegaram-me pelas mãos, pentearam os meus cabelos, calçaram-me botas e vestiram-me como em dia de domingo, com medidas que não eram minhas, apertando meu pescoço até que eu esquecesse como era respirar livremente. O junco, então, se dobrou tímido e envergonhado. Havia perdido a minha graça.

Mais tarde, quando eu caminhava pela boa estrada vermelha, vi-me estreito com a Mulher Anciã, que se firmava em uma bengala. Muitos tinham medo dela; contavam que possuía poderes mágicos. Ela mirou bem nos meus olhos e sentenciou:

 

​— Eu vejo os dentes de um porco castrado. Quando o sol se despedir hoje no horizonte, esteja em meu casebre, sem falta.

 

​Acorri ao local marcado pelo temor da maldição. O último raio de claridade batia em retirada quando adentrei o recinto. A Anciã esperava, escorada em seu bastão. Esgueirando o olhar, sussurrou:

 

​— Meu filho, o entardecer anda cauteloso. Vigilante e silencioso.

 

​Soltou uma gargalhada seca, estalo de lenha no fogo. Ergueu o bordão para o oeste, como se cortasse o ar:

 

​— Cubram os móveis. Que os fantasmas entrem.

 

​O calor da tarde fugiu num suspiro. O ar ficou gélido. Ouvi o assoalho ranger sob passos que não eram de gente. Patas grossas e presas duras, coisas que rastejam e aves que voam, vento tempestuoso que cumpre sua palavra. A procissão de presenças ingressou no ambiente. A velha ordenou:

 

​— Abram as janelas. Que as palavras saiam. Ninguém aqui mate a sua verdade.

 

​Meu coração bateu descompassado. Tentei recuar, mas minhas costas tocaram a parede de pau-a-pique. Foi quando a primeira silhueta, que parecia se dissolver e se refazer, deu um passo à frente:

 

​— Eu nasci com sobrenome de madeira velha que assobia e fui depositado nas folhas caídas de uma bromélia. Sou tanto e tão pouco. Tão multidão e tão poeira. Vim aqui para ouvir o convidado novo desta noite, o Seu Molita.

 

​Ao pronunciar o meu nome, um ar frio bruscamente destapou os móveis. A Anciã bateu com força no chão:

 

​— Não é permitido entrar depois do início!

 

​Para minha surpresa, todas as vozes se ergueram em uníssono:

 

​— Jataí Tubuno Mirim Mandaguari Mandaçaia!

 

​A mulher fechou os olhos e girou seu cajado em um círculo perfeito, batendo-o três vezes — toc, toc, toc. O caos cessou. Num gesto de reverência, inclinou a cabeça:

 

​— Está dada a palavra ao Seu Molita. Conte-nos sua história.

 

​Nesse instante, o Espírito do Vale de mim se apossou. Olhei a plateia de entidades e permiti ao vento soprar as palavras que eu havia engolido por décadas:

 

​— Eu fui um medíocre — iniciei. — Habitava o fundo da sala e o raso da existência. Enterrei minha sombra tão fundo que me tornei um estrangeiro na própria pele. Porém, quando a encontrei, ao invés de algo maligno, vi um garoto todo sujo e machucado, que me xingava sem parar.

 

​— Quero te escutar, só isso. Quero sentir a tua dor — disse-lhe.

 

​Penetramos uma caverna escura, e foi ali que o vi mudar de um garoto raivoso para alguém sozinho. Chorando, confessou seu medo de viver. Eu o ouvi até me encher de pena e urgência de salvá-lo. Ao perceber meu intuito, ele sumiu.

 

​Baixei a cabeça sob o peso rígido de querer consertá-lo. A Anciã, então, perguntou à assembleia:

 

​— Quando seguramos uma luz em uma caverna escura e vemos que lá existe alguém, o que devemos fazer?

 

​O silêncio perdurou até que o vulto da Dona Bete inclinou-se para a frente, cabelos alvos, pele branca, semblante rígido e terço na mão:

 

​— Eu não entendi muito bem a história que esse moço tá contando. Ele disse que encontrou um garoto sujo na escuridão. Para mim, quem está lá é o coisa ruim e precisa conhecer a Palavra para ser salvo. Ponto final.

 

​— E se não for o coisa ruim? A senhora só vai saber se ouvir o relato dele — considerou a sombra da Mulher Kaingang.

 

​Dona Bete ajeitou o colarinho com impaciência de quem afasta uma fumaça incômoda:

 

​— Ouvir história só é bom se for a da Bíblia! Quem crê não perde tempo com outras coisas.

 

​— Morei embaixo de uma ponte. Muitos vinham querendo me salvar, mas não tinham a menor ideia do que eu passei. Porém, apareceu uma mulher diferente. Ela não trazia promessas; trazia o tempo dela e o cheiro de um café. Dividia o pão comigo no chão sujo, sem me pedir para ser nada além de uma mulher ferida. Levei três anos para confiar que ela não era mais uma querendo me impor salvação.

Anciã... luz no escuro da lapa não é pra tirar ninguém de lá à força. É para iluminar o chão. Ver onde é seguro assentar o pé. Quem habita a penumbra não está ali por teimosia; está ali porque sua memória ainda não encontrou um lugar para sentar e descansar.

 

​Dona Bete cerrou os olhos, virou o rosto e agarrou firme seu terço, como se a fala da Mulher Kaingang fosse uma brisa inconveniente que pudesse desarrumar seu penteado. Por outro lado, entendi o meu tropeço. Chegar em pé, como uma luz que salva à força, é diferente de sentar-se ao lado e comer junto, como uma luz que ilumina o chão.


 

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Autor: Tiago Bueno Camargo


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