A Revelação

 

“Não importa que tenham demolido. A gente continua morando na velha casa em que nasceu.” (Mário Quintana)

 

 

Respirei fundo e deixei a porta de entrada da caverna aberta. Assim, passei a descer com frequência até lá, levando um café para sentar-me junto ao chão e dividi-lo com o garoto.

Depois que a confiança criou raiz, pedi que me levasse à origem da dor. Conduziu-me por túneis da alma, escorregando até o útero de minha mãe. Ali, um tremor me atravessou. Meu corpo bebia o que ela sentia: um pânico líquido circulando em minhas veias antes mesmo de eu ter um nome.

Parei. O ar no casebre diminuiu. A Anciã inclinou levemente a cabeça. O fogo estalou uma última vez, lançando uma faísca que brilhou como um olho na escuridão. Ela não disse palavra; sua bengala apenas riscou o chão de terra, como quem cutuca um formigueiro para ouvir o desenho do que vem de baixo.

— Na semana seguinte, fui em busca da verdade da minha mãe.

Encontrando-a, pedi que contasse tudo sobre minha gestação. A luz da tarde batia na mesa da cozinha, revelando a poeira suspensa no ar. Ela estava ali: metade iluminada pelo discurso de mãe perfeita, metade mergulhada na memória que temia acessar. Precisou encarar. Olhou para as próprias mãos e tocou as cicatrizes daquele tempo:

— Realmente quer saber tudo, meu filho? Até as partes ruins?

Vi um pano de prato se torcer; a água invisível de algo já seco pareceu brotar das fibras. Largou o tecido e tomou um gole da caneca. Não houve rodeios. Falou da traição que já ocupava a cama antes de eu ser um sopro. Contou segredos fortes que prefiro poupar. O casamento desmoronava enquanto o corpo dela cedia: as hérnias se abriram, a barriga caiu e ela sustentou meu peso sozinha.

O garoto sujo era um reflexo dessa herança — pensei.

Olhei para a guardiã, que respirava com leveza, enquanto um vulto inclinou-se à frente. Pude ver um par de Mãos Calejadas refletir-se na luz da lareira. Uma voz grave e cansada cortou o ambiente:

— Em vez de encontrar o demônio na escuridão, Seu Molita achou um garoto sujo e machucado que o levou à origem da dor. Nunca havia escutado um relato semelhante.

— Isso não tá na Escritura! — reagiu rápido Dona Bete. — O que não tá na Bíblia, o bicho ruim assina embaixo!

— Queria ter um tiquinho dessa sua certeza, Dona Bete. No meu mundo, o céu é mudo. Eu não espero nada de lá — suspirou o senhor Mãos Calejadas.

— Mas o senhor deveria ter um pouco de fé! — exclamou a fervorosa.

— E você, um pouco menos! — rebateu ele, seco.

Um silêncio se fez em meio ao debate, até que o Mãos Calejadas indagou:

— Anciã, e a senhora… acredita ou não em Deus?

— Quem diz que sabe, parou de andar. Quem diz que não existe, fechou os olhos antes de ver — respondeu ela.

— E o que a senhora faz, então?

— Eu espreito — sentenciou. — Agora, Seu Molita, deixe a água correr!

A fala da velha ficou vibrando em mim. Aquiesci e prossegui:

— Os dias se seguiram enquanto eu trabalhava num escritório atolado em papel e burocracia. Foi quando Naicha apareceu. Seu nome bateu no meu peito como um sino antigo. Havia nela um nó de madeira que não se explica: tinha o viço da folha nova, mas o cheiro de uma raiz ancestral. Era o tempo em redemoinho. Exalava terra úmida e ervas secas. Falou sobre um curso onde iria "contrabandear mistérios". Confiei que aquele era o fôlego que encerrava meu exílio.

O fogo, que antes era só brasa, deu um estalo de aprovação. A Anciã apenas acenou com o queixo, como quem vê um bicho voltando para a trilha certa. O garoto sujo levantou-se e seguimos por aquela vereda.

 


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Autor: Tiago Bueno Camargo


Diálogo, Conexão e Escuta Suspensiva

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