Parte II: O Nômade

 

“Para atravessar a fronteira do medo, tive que deixar o filho obediente para trás.” (Conceição Molita)

 

 

O garoto sujo e machucado finalmente saiu da caverna. Aparecia quase sempre zangado, com os punhos cerrados e as bochechas vermelhas de indignação. A dor permanecia, mas algo mudou na minha atitude: em vez de reprimi-lo, passei a dar-lhe permissão para existir. Rasguei a roupa de domingo que me apertava e o que sobrou foi alguém que começava a se ajeitar novamente dentro da própria pele.

 

​A jornada se tornou solitária. Abandonar o emprego formal significava que eu nunca mais bateria um cartão-ponto. Essa escolha me dava força, por um lado; mas, por outro, aos olhos do mundo, eu era apenas alguém sem rumo, sem dinheiro e sem ofício. A vida civil organizada cedia lugar à existência de um militante clandestino vivendo sem programação. Na mochila, eu não carregava apenas uma barraca; sustentava a determinação do meu propósito.

 

​Naquele instante, a Anciã inclinou-se para a frente, a luz das velas dançando em suas rugas. Ela soprou, com uma voz que parecia emergir das profundezas da terra:

 

​— A liberdade tem dentes afiados. O senhor vai permitir que ela o morda?

 

​A pergunta foi o sinal verde. Contemplei os vultos e continuei:

 

​— Antes de pegar a estrada, recebi um último telefonema de meu pai. Fechei os olhos no casebre e quase pude ouvir o som daquela conexão antiga cortando o silêncio.

 

​— Por que, meu filho? — perguntava ele. — Por que é tão difícil ser igual aos outros? Vem para casa e se alimenta, você é só pele e osso!

 

​— Antes pele e osso do que um fantasma. Eu vou! — respondi.

 

​Para atravessar aquela aduana, tive que aprender a ser a decepção dos outros para não ser a minha própria tragédia. Pela primeira vez, o receio de desagradar quem me deu a vida era menor do que a dor de sufocar o garoto de bochechas vermelhas, que gritava: “Não deixe ele me trancar de novo!”. A indignação daquele menino era o combustível de que eu precisava.

 

​— Confie em mim. Deixa eu errar meus próprios tombos. Só me dê apoio. Você pode fazer isso?

 

​Ele tentou contra-argumentar, mas insisti com uma calma que me era estrangeira:

 

​— Só apoio. Você pode?

 

​O silêncio na linha durou uma vida. Eu ouvia o chiado da distância e o cansaço dele. Enquanto isso, no canto, Dona Bete comprimiu os lábios até que eles sumissem numa linha branca de reprovação. Para ela, honrar pai e mãe era baixar a cabeça, nunca levantar a voz para pedir um destino próprio. O sinal da cruz que ela traçou no ar foi rápido e seco, como quem tenta benzer um lugar onde a heresia acaba de entrar.

 

​— Posso — ele respondeu.

 

​Ali, o cordão rompeu. Meu pai confessou que, na minha idade, também ouviu o chamado, mas temeu ser um marginal e perder o amor dos outros. Ao admitir seu medo, ele não estava apenas me dando permissão; estava quebrando a grade de uma gaiola que habitávamos há gerações. O ar no casebre ficou mais leve. Uma das velas da Anciã apagou-se, como se o suspiro dele tivesse viajado quilômetros para selar o pacto.

 

​— Seu Molita, a raiva, quando senta no lugar certo, não é briga, é alicerce — sentenciou a velha.

 

​Ela se levantou com a bengala e dirigiu-se à lareira, colhendo um graveto e atiçando as brasas. Aguardamos em silêncio que as labaredas se levantassem. Olhei para a Dona Bete, que rezava o terço e espreitava o movimento com a cabeça baixa, até que levantou uma das mãos e pediu a palavra:

 

​— Eu não sinto raiva. Pra mim ela é erva ruim que arranco pela raiz — comentou.

 

​— Acho que todo mundo sente raiva — redarguiu a Mulher Kaingang. — Esse fogo não é ruim nem bom. Ele não deve ser usado para queimar o outro, mas para alumiar o próprio passo.

 

​— Eu discordo — tornou a Dona Bete, com o semblante fechado. — Ele desonrou o pai não sendo obediente, e isso é pecado. Tá na Bíblia, infiel!

 

​— E você, Anciã, sente raiva? — interveio o senhor Mãos Calejadas.

 

​A guardiã parou com o graveto a meio caminho da lareira. O brilho do fogo refletiu em suas pupilas, transformando o olhar em duas brasas vivas.

 

​— A raiva é o ferrão da abelha, meu filho — disse ela, com a voz rouca pela fumaça. — Se a abelha não tiver o ferrão, o mel vira banquete de qualquer bicho preguiçoso. Eu não a sinto como quem guarda veneno no pote; sinto como quem vigia a própria casa. Sem ela, a gente não é santo; a gente é só um portão sem tranca.

 

​Ela soltou o graveto nas brasas e o estalo da lenha pareceu um ponto final.

 

​— Agora, Seu Molita, prossiga e conte-nos como foi pegar a estrada.

 





CLIQUE AQUI PARA CONTINUAR A LEITURA




Autor: Tiago Bueno Camargo


Diálogo, Conexão e Escuta Suspensiva

Grupos de Estudo e Prática





Instagram: @tiago.vento

Nenhum comentário:

Postar um comentário