“Para atravessar a
fronteira do medo, tive que deixar o filho obediente para trás.” (Conceição
Molita)
O garoto sujo e
machucado finalmente saiu da caverna. Aparecia quase sempre zangado, com os
punhos cerrados e as bochechas vermelhas de indignação. A dor permanecia, mas
algo mudou na minha atitude: em vez de reprimi-lo, passei a dar-lhe permissão
para existir. Rasguei a roupa de domingo que me apertava e o que sobrou foi alguém
que começava a se ajeitar novamente dentro da própria pele.
A jornada se tornou
solitária. Abandonar o emprego formal significava que eu nunca mais bateria um
cartão-ponto. Essa escolha me dava força, por um lado; mas, por outro, aos
olhos do mundo, eu era apenas alguém sem rumo, sem dinheiro e sem ofício. A
vida civil organizada cedia lugar à existência de um militante clandestino vivendo
sem programação. Na mochila, eu não carregava apenas uma barraca; sustentava a determinação
do meu propósito.
Naquele instante, a
Anciã inclinou-se para a frente, a luz das velas dançando em suas rugas. Ela
soprou, com uma voz que parecia emergir das profundezas da terra:
— A liberdade tem
dentes afiados. O senhor vai permitir que ela o morda?
A pergunta foi o
sinal verde. Contemplei os vultos e continuei:
— Antes de pegar a
estrada, recebi um último telefonema de meu pai. Fechei os olhos no casebre e
quase pude ouvir o som daquela conexão antiga cortando o silêncio.
— Por que, meu
filho? — perguntava ele. — Por que é tão difícil ser igual aos outros? Vem para
casa e se alimenta, você é só pele e osso!
— Antes pele e osso
do que um fantasma. Eu vou! — respondi.
Para atravessar
aquela aduana, tive que aprender a ser a decepção dos outros para não ser a
minha própria tragédia. Pela primeira vez, o receio de desagradar quem me deu a
vida era menor do que a dor de sufocar o garoto de bochechas vermelhas, que
gritava: “Não deixe ele me trancar de novo!”. A indignação daquele menino era o
combustível de que eu precisava.
— Confie em mim.
Deixa eu errar meus próprios tombos. Só me dê apoio. Você pode fazer isso?
Ele tentou
contra-argumentar, mas insisti com uma calma que me era estrangeira:
— Só apoio. Você
pode?
O silêncio na linha
durou uma vida. Eu ouvia o chiado da distância e o cansaço dele. Enquanto isso,
no canto, Dona Bete comprimiu os lábios até que eles sumissem numa linha branca
de reprovação. Para ela, honrar pai e mãe era baixar a cabeça, nunca levantar a
voz para pedir um destino próprio. O sinal da cruz que ela traçou no ar foi
rápido e seco, como quem tenta benzer um lugar onde a heresia acaba de entrar.
— Posso — ele
respondeu.
Ali, o cordão
rompeu. Meu pai confessou que, na minha idade, também ouviu o chamado, mas
temeu ser um marginal e perder o amor dos outros. Ao admitir seu medo, ele não
estava apenas me dando permissão; estava quebrando a grade de uma gaiola que
habitávamos há gerações. O ar no casebre ficou mais leve. Uma das velas da
Anciã apagou-se, como se o suspiro dele tivesse viajado quilômetros para selar
o pacto.
— Seu Molita, a
raiva, quando senta no lugar certo, não é briga, é alicerce — sentenciou a
velha.
Ela se levantou com
a bengala e dirigiu-se à lareira, colhendo um graveto e atiçando as brasas.
Aguardamos em silêncio que as labaredas se levantassem. Olhei para a Dona Bete,
que rezava o terço e espreitava o movimento com a cabeça baixa, até que
levantou uma das mãos e pediu a palavra:
— Eu não sinto
raiva. Pra mim ela é erva ruim que arranco pela raiz — comentou.
— Acho que todo
mundo sente raiva — redarguiu a Mulher Kaingang. — Esse fogo não é ruim nem bom.
Ele não deve ser usado para queimar o outro, mas para alumiar o próprio passo.
— Eu discordo —
tornou a Dona Bete, com o semblante fechado. — Ele desonrou o pai não sendo
obediente, e isso é pecado. Tá na Bíblia, infiel!
— E você, Anciã,
sente raiva? — interveio o senhor Mãos Calejadas.
A guardiã parou com
o graveto a meio caminho da lareira. O brilho do fogo refletiu em suas pupilas,
transformando o olhar em duas brasas vivas.
— A raiva é o ferrão
da abelha, meu filho — disse ela, com a voz rouca pela fumaça. — Se a abelha
não tiver o ferrão, o mel vira banquete de qualquer bicho preguiçoso. Eu não a
sinto como quem guarda veneno no pote; sinto como quem vigia a própria casa.
Sem ela, a gente não é santo; a gente é só um portão sem tranca.
Ela soltou o graveto
nas brasas e o estalo da lenha pareceu um ponto final.
— Agora, Seu Molita,
prossiga e conte-nos como foi pegar a estrada.
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