A Catarse


Havia um nó de silêncio atado ao meu primeiro grito. Um medo antigo de habitar o lado de fora.” (Isabel Molita)

 

 

Nos primeiros dias, percebi que o tempo havia mudado de dono. Participei, junto com outras vinte pessoas, de uma série de dinâmicas que me desafiaram em muitos níveis, mas nada se comparava ao que estava por vir: o último dia reservava algo arrebatador.

 

​Não é possível descrever em detalhes a condução feita por Naicha e sua equipe.

Apesar das descobertas que tive com minha criança interior, a raiz permanecia intocada. Foi então que a atividade final começou. Pude reviver minha mãe no instante do parto. Uma dor amarga subiu pelo peito e sentenças antigas martelavam minha mente:

 

​— Eu quero morrer, me tira daqui! Eu quero morrer, me tira daqui…

 

​Minha boca entortou sob o peso de décadas de mordaça. Pronunciar aquilo era como arrastar uma rocha enquanto o ar me faltava. Foi quando Naicha inclinou-se e sussurrou, com a precisão de quem poda o galho seco para a seiva voltar a correr:

 

​— Troque o comando da sua linhagem. Diga: “Eu quero viver”.

 

​Forcei as palavras para fora. Elas saíram rasgando, atravessando a garganta como vidro:

 

​— Eu quero viver! Eu quero viver!

 

​O ferrolho rompeu. O choro não era tristeza, era enchente; lavava a terra seca. Eu gritava e soluçava; as palavras não eram pedidos: eram decretos.

 

​— Eu quero viver! Eu quero viver neste mundo! Eu vou viver! — bradava eu, entre soluços ruidosos.

 

​Logo após a explosão inicial, o pranto mudou de nota. Uma força incomum me atravessou, uma frequência que repetia na minha consciência: “Eu sou como sou e sou amado pelo que sou”. Algo estalou. A corrente que me prendia ao fundo do poço partiu-se.

Naquele instante, entendi que o funcionário assalariado, o carimbo humano, o homem das botas apertadas, acabava de falecer. Enterrei-o na cova da obediência, sem flores ou remorso. O silêncio não era vácuo, mas estrada aberta. Um nômade iniciava sua jornada.

Eu havia vencido o pânico líquido. No alívio que substituía o peso sobre os meus ombros, senti que minha catarse operava uma limpeza coletiva; tive a impressão de que até os vultos ao meu redor respiravam aliviados — menos a Dona Bete, que mascava rezas em voz baixa com os olhos fechados, como se quisesse erguer um muro contra aquela lavagem de alma. Olhei para a Anciã e ela, então, sentenciou:

 

​— Quando um filho cura uma ferida de linhagem, todos os ancestrais descansam.

 

​Deixamos que o peso de séculos se dissolvesse no calor da lareira. Restava saber: o menino que permaneceu tanto tempo no escuro suportaria a vastidão da luz?



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Autor: Tiago Bueno Camargo


Diálogo, Conexão e Escuta Suspensiva

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